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Histórias e Lendas da Europa

by Clube Europeu da Escola Abade Correia da Serra

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Comic Panel 1
1
Hans Christian Andersen
Escritor dinamarquês
Hans entrou em casa com uma braçada de lenha e foi empilhá-la ao canto da lareira. Estava cheio de frio mas as chamas não o podiam aquecer porque o gelo se acumulara no seu coração. O pai tinha partido para a guerra nessa mesma tarde. Decidira seguir Napoleão, alistar-se no exército francês.
Ele bem queria não pensar nisso, mas tudo naquela sala lhe lembrava o pai. Ninguém se dera ao trabalho de esconder a caneca de cerveja, as botas de neve, as tiras de couro e as agulhas muito grossas com que remendava solas e fazia sapatos.
Cabisbaixo, foi buscar o banco de madeira onde costumava sentar-se à espera da ceia. A avó interpelou-o num tom bastante ríspido:
_ Preciso que vás buscar água ao poço. Traz-me o balde maior.
Ele olhou-a surpreendido. O balde maior era enorme, não tinha forças para o transportar.
Como se lhe tivesse lido os pensamentos, a mãe interveio:
_ Agora és tu o homem da casa …
A frase cravara-se-lhe no peito como uma punhalada. «O homem da casa? Mas só tenho oito anos!»
No entanto, era assim mesmo. Na família só havia mulheres: a avó, a mãe, a irmã. E todas olhavam para ele na esperança que as ajudasse a vencer a miséria.
Para ganhar a vida começou por trabalhar numa fábrica de onde foi despedido pouco depois, porque não tinha jeito nenhum para as tarefas.
O emprego seguinte também não lhe agradou nada: aprendiz numa loja de alfaiate. Não dispondo de habilidade manual, devia ser um tormento!
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Hans entrou em casa com uma braçada de lenha e foi empilhá-la ao canto da lareira. Estava cheio de frio mas as chamas não o podiam aquecer porque o gelo se acumulara no seu coração. O pai tinha partido para a guerra nessa mesma tarde. Decidira seguir Napoleão, alistar-se no exército francês.
Ele bem queria não pensar nisso, mas tudo naquela sala lhe lembrava o pai. Ninguém se dera ao trabalho de esconder a caneca de cerveja, as botas de neve, as tiras de couro e as agulhas muito grossas com que remendava solas e fazia sapatos.
Cabisbaixo, foi buscar o banco de madeira onde costumava sentar-se à espera da ceia. A avó interpelou-o num tom bastante ríspido:
_ Preciso que vás buscar água ao poço. Traz-me o balde maior.
Ele olhou-a surpreendido. O balde maior era enorme, não tinha forças para o transportar.
Como se lhe tivesse lido os pensamentos, a mãe interveio:
_ Agora és tu o homem da casa …
A frase cravara-se-lhe no peito como uma punhalada. «O homem da casa? Mas só tenho oito anos!»
No entanto, era assim mesmo. Na família só havia mulheres: a avó, a mãe, a irmã. E todas olhavam para ele na esperança que as ajudasse a vencer a miséria.
Para ganhar a vida começou por trabalhar numa fábrica de onde foi despedido pouco depois, porque não tinha jeito nenhum para as tarefas.
O emprego seguinte também não lhe agradou nada: aprendiz numa loja de alfaiate. Não dispondo de habilidade manual, devia ser um tormento!
Comic Panel 1
A responsabilidade excessiva que pesava nos seus ombros frágeis encheu-lhe a alma de melancolia. Nas horas vagas, em vez de brincar com os rapazes da mesma idade, refugiava-se num canto a ler e a escrever poemas.
Certo dia, porém, teve um encontro muito animador. Na vizinhança, havia uma mulher que todos consultavam para saber o futuro porque tinha fama de adivinha.
Hans cruzou-se com ela à saída da igreja e para seu grande espanto, a feiticeira segurou-o por um braço com um ar entusiasmadíssimo:
_ Hans Christian Andersen! Quando fores muito famoso, não te esqueças de mim!
_ Famoso, eu?
_ Sim. Vejo nos teus olhos a glória, a riqueza e a fama.
E pegando-lhe avidamente nas mãos pôs-se a estudar as linhas que riscam a pele, como se lesse num livro.
_ Eh! O que para aqui vai de sucesso! Tanta coisa boa, meu filho.
Ele nunca mais sossegou, ansioso por ir em busca do tal destino magnífico que a velha anunciara. E insistia com a mãe:
_ Deixe-me ir para a capital. Deixe-me ir para Copenhaga. Para vencer na vida tenho que sair daqui.
A mãe hesitava . A avó achava um disparate. A irmã ria-se.
Mas a velha acabou por convencê-las e o rapaz partiu mesmo. Nessa altura tinha catorze anos e o coração cheio de ilusões.
Talvez julgasse que, ao desembarcar, tudo seria logo fácil e grandioso. Os primeiros tempos em Copenhaga, no entanto, foram difíceis.
Só arranjava trabalhos mal pagos, ninguém ligava à sua poesia, chegou mesmo a passar fome.
A responsabilidade excessiva que pesava nos seus ombros frágeis encheu-lhe a alma de melancolia. Nas horas vagas, em vez de brincar com os rapazes da mesma idade, refugiava-se num canto a ler e a escrever poemas.
Certo dia, porém, teve um encontro muito animador. Na vizinhança, havia uma mulher que todos consultavam para saber o futuro porque tinha fama de adivinha.
Hans cruzou-se com ela à saída da igreja e para seu grande espanto, a feiticeira segurou-o por um braço com um ar entusiasmadíssimo:
_ Hans Christian Andersen! Quando fores muito famoso, não te esqueças de mim!
_ Famoso, eu?
_ Sim. Vejo nos teus olhos a glória, a riqueza e a fama.
E pegando-lhe avidamente nas mãos pôs-se a estudar as linhas que riscam a pele, como se lesse num livro.
_ Eh! O que para aqui vai de sucesso! Tanta coisa boa, meu filho.
Ele nunca mais sossegou, ansioso por ir em busca do tal destino magnífico que a velha anunciara. E insistia com a mãe:
_ Deixe-me ir para a capital. Deixe-me ir para Copenhaga. Para vencer na vida tenho que sair daqui.
A mãe hesitava . A avó achava um disparate. A irmã ria-se.
Mas a velha acabou por convencê-las e o rapaz partiu mesmo. Nessa altura tinha catorze anos e o coração cheio de ilusões.
Talvez julgasse que, ao desembarcar, tudo seria logo fácil e grandioso. Os primeiros tempos em Copenhaga, no entanto, foram difíceis.
Só arranjava trabalhos mal pagos, ninguém ligava à sua poesia, chegou mesmo a passar fome.
Comic Panel 1
Como fazia pequenos serviços num teatro, convenceu-se que a sua grande oportunidade era no palco. Tanto se esforçou que conseguiu obter um papel secundário. E até tinha jeito, porque apareceu alguém que se dispôs a ajudá-lo a fazer carreira no Teatro Real. Mas não era esse o seu caminho. Nas vésperas da primeira audição ficou doente e perdeu a voz.
Triste e acabrunhado, mergulhou de novo nos poemas. Lindos poemas! Assim que foram publicados num jornal, «a estrela da sorte refulgiu no firmamento»...
Dois poetas famosos e um homem importante chamado Jonas Collin interessaram-se por ele; decidiram recomendá-lo ao rei e pagar-lhe os estudos. Mandaram-no para um dos melhores colégios da Dinamarca pois valia a pena apostar em quem tinha talento.
Hans não desiludiu os seus protetores. Pouco depois, escreveu uma história cómica com tanto êxito que nunca mais lhe faltaram editores. Seguiram-se livros de poemas, peças de teatro, romances.
Mas o que o tornou conhecido em todo o mundo foram as histórias para crianças. O Soldadinho de Chumbo, A Menina dos Fósforos, A Sereiazinha e tantas outras chegaram até aos nossos dias traduzidas em muitas línguas, adaptadas para o teatro, cinema e até para desenhos animados. A figura da sereiazinha, sentada numa pedra a olhar para o mar, tornou-se o símbolo de Copenhaga.
A feiticeira tinha razão. Hans Christian Andersen foi um homem famoso, rico, respeitado e admirado por todos os que o conheceram e por todos os que leram a sua obra.
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