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A girafa que comia estrelas

by Guilherme Dias

Pages 4 and 5 of 26

A girafa que comia estrelas
José Eduardo Agualosa
Ilustrador Henrique Cayatte
D. Quixote
Para a Vera Regina, que um dia me ensinará a dançar


Às vezes a mãe ralhava com ela:
«Olímpia, Olímpia, lá estás tu outra vez com a cabeça nas nuvens!»

E era verdade, a pura verdade.
Aos cinco anos Olímpia já ultrapassava em altura todas as girafas da savana.
Era tão alta que quando levantava o pescoço e se punha na pontinha dos pés a cabeça dela desaparecia entre as nuvens.
A mãe de Olímpia, Dona Augusta, não gostava daquilo:
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«As nuvens são húmidas e frias, Olimpiazinha, olha que e te constipas.»

O pior que pode acontecer a uma girafa é ficar constipada.
Primeiro porque quando espirram assustam todos os outros bichos, e sacodem as árvores e as coisas, e algumas chegam mesmo a perder a cabeça (a cabeça pode saltar com a força do espirro); depois porque é difícil conseguir um cachecol capaz de cobrir pescoços tão compridos.
Olímpia, porém, gostava de andar com a cabeça nas nuvens – queria ver os anjos.
A Avó Rosália, mãe de Dona Augusta, dissera-lhe que os anjos dormem nas nuvens. Também lhe dissera que  quando as pessoas morrem se transformam em anjos.
Dissera-lhe isto pouco antes de morrer.
Por isso Olímpia passava o dia inteiro com a cabeça enfiada nas nuvens.
Tinha saudades da avó.
À noite comia estrelas.
Enquanto as outras girafas dormiam, Olímpia subia ao  morro mais alto da savana, levantava o pescoço e comia estrelas.
As estrelas ardiam um pouco na garganta, mas eram doces e macias, e sabiam a pêssego.
Ao contrário do que seria de supor, a noite não ficava mais vazia por causa disso.
À medida que Olímpia comia estrelas, outras estrelas nasciam, novinhas em folha, brilhando ainda mais do que as antigas.
Assim, de certa maneira, ela renovava a noite.
Olímpia nunca encontrou nenhum anjo.

Um dia, porém, descobriu uma galinha-do-mato que fizera ninho no meio das nuvens.
O ninho estava cheio de objetos brilhantes que a galinha trouxera da terra – três pares de óculos, oito berlindes coloridos, um colar de pérolas, um arco-íris de bolso, um olho de vidro que havia pertencido (dizia ela) ao famoso pirata de perna de pau.

As galinhas-do-mato são muito bonitas, todas pretas com pintinhas brancas, e por isso também lhes chamam galinhas pintadas.
Aquela pareceu a Olímpia ainda mais bonita do que as restantes.

As pernas dela brilhavam com uma luz própria, como se pelo facto de viver tão alto tivesse adquirido um pouco do fulgor do sol.

«Olha lá», perguntou-lhe Olímpia, admirada, «tu és um anjo?»
Não, era apenas uma galinha que gostava de viver nas nuvens.
Chamava-se Dona Margarida.

Não era muito inteligente, coitada, mas gostava de pensar.
Pensava, pensava e depois dizia coisas óbvias, que já toda a gente sabia, como se ela mesmo as tivesse inventado.
Por exemplo:

«Quem tudo quer tudo perde.»
«Devagar se vai ao longe.»
«Nem tudo o que reluz é oiro.»
Etc. Dizia estas coisas piscando os olhinhos e torcendo a cabeça via-se que fazia muita força para pensar.
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