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A estufa neogótica da Quinta da Lavandeira

by carlos sousa

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A estufa da Quinta da Lavandeira
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Sobre a estufa, escreveu Duarte de Oliveira Júnior no jornal O Comércio do Porto de 8 de Agosto de 1883: “ A estufa do Sr. conde da Silva Monteiro é um documento eloquente do progresso que a arte e a indústria tem feito em Portugal, porque, nessa edificação, nova no seu género entre nós, encontramos uma e outra levadas a um grau de perfeição, que pode fazer a inveja de engenheiros distintos. (...) Não se procurou, como se vê, fazer uma edificação vulgar, uma estufa como todas as outras. Recorreu-se à arte, pensou-se muito na parte ornamental, e é este o seu maior mérito. Conhecemos as principais estufas e jardins de Inverno da Europa, em geral umas construções simples e, pouco ou nada arquitectónicas, e, que portanto, diferem muito desta. Aqui, o desenhador pegou no lápis e foi descrevendo traços sobre o papel, à medida que a fantasia divagava pelos domínios da arte dos séculos passados. Não se pode dizer que seguisse rigorosamente este ou aquele estilo, mas o conjunto é agradável à vista. 
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A Quinta da Lavandeira era uma propriedade característica da paisagem rural Gaiense do séc. XIX, afastada do centro histórico da cidade, onde existiam outras Quintas de Recreio das quais subsistem ainda, parte da Quinta de Boucinhas, a Quinta do Sardão e a Quinta de Cravel, localizadas junto da Quinta da Lavandeira. A Quinta da Lavandeira terá sido formada no séc. XVIII tendo passado por vários proprietários ao longo dos anos, obtendo especial importância no séc. XIX com o Sr. Conde da Silva Monteiro. 
Um texto do “Archivo Pitoresco” de 1864 refere que: “A quinta da Lavandeira, (…), é digna de se ver pela sua bella coleção de plantas exóticas, sobre tudo arvores e arbustos, e por um grande lago aformoseado com uma ilha povoada de camélias, e com variedade de cedros, araucárias, e outras árvores de talhe esbelto e gracioso. Pertenceu esta propriedade ao falecido conselheiro Joaquim da Cunha Lima Oliveira Leal, que a traçou e enriqueceu de plantas, e na qual estabeleceu uma quinta modelo, com subsídios do governo, onde se ensaiavam e ensinavam os novos sistemas de agricultura. É proprietário atualmente d’esta quinta o Sr. Joaquim Correia Moreira.”
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A quinta do Sr. conde da Silva Monteiro, situada sobre uma vasta planície na margem esquerda do Douro e a cerca de 4 quilómetros do Porto, é uma das propriedades mais notáveis dos subúrbios da cidade. Possui pomares importantes, terrenos cultivados a cereais, jardins espaçosos cortados por lagos e regatos, bosques sombrios e tudo quanto pode tornar uma quinta aprazível para se passar uma temporada no campo, muito agradavelmente, no convívio de parentes e amigos.
Duarte de Oliveira Júnior
O Comércio do Porto, 8 de Agosto de 1883 
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António da Silva Monteiro, filho de António da Silva Monteiro e D. Ana Narcisa, nasceu a 16 de agosto de 1822 na freguesia de S. Martinho de Lordelo do Ouro no Porto, faleceu a 15 de janeiro de 1885. Recebeu o título de Conde a 22 de dezembro de 1875 por decreto de D. Luís I rei de Portugal. Fez parte de uma família de comerciantes, emigrou com o seu irmão João da Silva Monteiro para o Rio de Janeiro no Brasil, onde juntou larga fortuna através da atividade comercial entre Portugal e o Brasil. 
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Casou-se no Rio de Janeiro com D. Carolina Júlia Ferreira, filha de Manuel Ferreira Gomes, negociante português, e sua mulher D. Laureana Angélica da Silva. Como outras personalidades da época antes de regressar a Portugal realizou uma viagem de recreio pela Europa. Quando regressou ao seu país natal instalou-se no Porto onde viveu na rua da Restauração». (Leite, 2016) Com uma vasta influência no Porto o conde da Silva Monteiro esteve ligado à empresa do Caminho de Ferro Porto-Póvoa de Varzim e Famalicão, à tanoaria a vapor, à fábrica de papel de Ruães, à companhia Aurífera, à companhia de navegação a vapor, à companhia mineira e metalúrgica do Braçal, aos albergues noturnos, contribui para a criação das escolas de Lordelo do Ouro e de Miragaia. (Leite, 2016), p. 193-196)
Sobre a vegetação dos jardins, em 1881, no Jornal de Horticultura Prática, José Marques Loureiro refere que, em alguns locais, a vegetação chega a ser tão luxuriante como a dos trópicos: «Sob árvores seculares vimos Begónias, Caladiums, Crotons, Fetos arbóreos, Palmeiras, Cycas, Musas, Anthuriuns e Orchideas» (Loureiro, 1881, p. 259). É ainda dado destaque a um Cupressus lawsoni, um  Pinus palustris, um Abies alba, e um Osmanthus fragans que o surpreendeu bastante pelas suas dimensões, teria 8 metros de altura e 22 de diâmetro.  
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A porta do centro é ampla (3,30m de largo), elegante, bem proporcionada, e as laterais condizem com o resto do edifico. Os rendilhados da cobertura são todos de ferro e de uma leveza tão extraordinária, que mais parecem recortes feitos em papel transparente. O corpo principal é sustentado por quatro arcos, nos quais se observa o mesmo estilo da parte exterior que recorda muito o gótico. Nesta edificação é tudo harmonioso e bem proporcionado. Tem 24 metros de frente, 12 de altura no centro e 12 de fundo. Quando estiver povoada de plantas, deve produzir um efeito surpreendente.” (Oliveira Junior, 1883, p. 149) 
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O Sr. Conde da Silva Monteiro, cavalheiro respeitabilíssimo e o que pode chamar, em linguagem chã, mas muito expressiva, um grande patriota, resolveu confiar esta obra a indústria portugueses, e teve a felicidade de acertar, escolhendo a Fundição do Ouro, a mais moderna de todas, mas a que mais tem conseguido acreditar se no país. Foi a mais acertada pois a obra nada deixa a desejar. Como construção de luxo, é das melhores que conhecemos e, de resto, a gravura dá uma ideia completa do trabalho. Não se procurou, como se vê, fazer uma edificação vulgar, uma estufa como todas as outras. Recorreu-se à arte, pensou-se muito na parte ornamental, e é este o seu maior mérito. (…) Daqui se vê que esta estufa é uma das maiores que existe em Portugal e a primeira entre todas quanto possuem armadores portugueses. Na parte exterior da estufa há uma escada que dá acesso a todos os pontos, o que é importante, porque facilita muito, qualquer reparo que se torne necessário fazer. Segundo nos informaram os construtores, a organização dos moldes em madeira, chumbo e zinco levou 883 dias a um entalhador, e a fabricação das suas diferentes peças de ferro batido e fundido 2 372 dias a um serralheiro. O peso total do ferro empregado na sua construção é de 38 285 kilos. Nós que não costumamos malbaratar encómios, temos muito gosto em poder tece-los hoje, no «Jornal de Horticultura Prática», à Fundição do Ouro, da qual são diretores os Srs. Luís F. de Sousa Cruz & filhos. Este trabalho não lhes daria grande proveito, mas dá-lhes honra, e muita honra. A estufa ficou pronta por 10 000 reis. Congratulamos por ver a nossa indústria tão adiantada, e connosco se congratularão, decerto, todos quantos desejem a prosperidade do país, e estamos convencidos que a Fundição do Ouro receberá, em breve, encomendas para trabalhos deste género. Aqueles que a preferirem, não se arrependerão» (Júnior D. d., 1883)
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